terça-feira, 5 de novembro de 2013

Aspirando Mercúrio

18ºC; 16km/h; moletom azul; respiração ofegante; dor abdominal no lado esquerdo superior; som de rodas passando na água da recente chuva no asfalto. Tentando desligar a mente ao menos por 6km, não pensar em nada e em ninguém, deparar com um branco leitoso: sem estar, ser ou parecer. Só sentir o vento cortar uma mente vazia e sem preocupações, transpassar um coração ileso, virgem, sem dor ou cicatrizes. Sentir o suor descer pelas têmporas e secar com a brisa antes que ultrapasse minhas costeletas.

Tomar uma rua aleatória, pedalar até uma estrada que me leve pra longe. Longe de tudo o que se refere a mim e toda a minha vida, esquecer por um tempo o que sou e quem fui. Observar as pessoas sem nenhum preconceito ou julgamento, mas apenas olhar e não perceber nada, só ver rostos e atitudes sem significados: sem classe, beleza ou status. Interagir o mínimo possível, falar o que for conveniente e rir de si mesmo sem saber ao certo do que.

Não ter pai, mas só uma mãe, Mãe Terra. Surgir da incerteza e não querer achar um sentido ou origem de tal nascimento. Viver pra viver, sem querer um passado e não almejar um brilhante futuro, nem pensar no futuro. Ouvir música e não lembrar de nada e ninguém, só dançar como se pudesse flutuar, sem vergonha ou limitação física ou simplesmente apreciar cada acorde, mas sem querer interpretar a letra. Só ouvir por ouvir, curtir o ritmo que ela me oferece.

Não criar laços, não se interessar e muito menos amar. Olhar pra todas e não ver olhos interessantes, nem cabelos, nem gestos e muito menos sorrisos inesquecíveis. Só ver o que for útil pra aquele momento, algo rápido e sem continuidade, não ter de fechar os olhos e tornar a vê-las.

Comer, se exercitar, descansar, banhar-se e dormir. Não ter que escrever, não ter porquê escrever. Não ter por quem escrever, nem querer alguém pra ter de escrever, não querer que ninguém leia. Não querer ler, nem descobrir, deixar como está, sem se sentir incomodado com isso. Nem mudar, nem transformar, só ser. Dormir sem ter que fechar os olhos.

Não sonhar, nunca.

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