quinta-feira, 12 de julho de 2018

Dor ou nada

Conseguir sorrir o dia todo com a alma despedaçada foi algo que me acostumei, até o momento. Minha mente não descansa por um segundo sequer, o peito se preenche de vácuo. Não importa quantos olhares ou bocas alheias eu encontre, a esfera opaca continua a existir. Será que tem um tipo de amor que se gasta? Família e amigos, amor constante e imutável. Amar uma mulher: amor constante, mutável e se desperdiçar não volta, gastou.
Esse calafrio não era dor, queria eu que fosse, são doses de nada me preenchendo mais e mais. Evitei muitas formas de não vê-la, não ter chance de voltar atrás; mostrar toda a face do mercenário que agora sou, decepcionar de propósito, gerar ódio e repulsa. Acordar todos os dias com o mantra: feliz sem mim; feliz sem mim; feliz sem mim. Hoje vi sua felicidade e todo esse nada começou a doer. Só quero que algo bom consiga brotar em mim novamente.

Pela última vez: Feliz sem mim.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Olhos secos

Por muito tempo me enxerguei de forma linear. Cada episódio importante moldaria meu ser gradualmente, uma evolução involuntária, quase sempre benéfica. Só que o agora me mostra a quebra dessa linha em milhares de fragmentos, juntos formam uma esfera opaca. Espero poder retirar toda essa opacidade, enxergar o que há dentro; ta difícil me entender. Não dá mais vontade de voltar, não há arrependimentos, não há sede de futuro. Meus olhos? Ainda secos, nenhuma umidade, o que me preocupa.


Xeroftalmia.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

À Deriva

Cada fio negro se enrola em minha consciência e a lembrança do erro se porta como fagulha no peito. O arrependimento se torna raiva, e a fúria dos lábios macios e venenosos me deixam à deriva. As velas já içadas não conseguem me conduzir pra lugar algum, pois os olhos de navalha ainda cortam, cortaram fundo demais.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Olhos de Navalha

No peito só resta o vazio e cicatrizes geladas, o frio na barriga é de dor, as borboletas que aqui já habitaram estão mortas ou cansaram de bater asa. Fui alvo das lâminas mais afiadas do mundo, lâmina fria nº 22; cortaram meu ser, minha honra e corromperam minha alma pra todo o sempre. Destruí o que construí durante 19 anos, já não posso ser o cavaleiro de armadura reluzente, mas sim o mercenário, sem código.
Cabelos negros me mergulharam na escuridão; não posso destruir quem me amou da forma mais perfeita e verdadeira, devo partir sem olhar pra dor que causei. Assim, a dor vai ser menor.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Dois

Deitado na cama, malas quase prontas no meio do quarto e o olhar no teto. Não sei se dormi, se sonhei ou se me perdi no nada de novo, só sei que me lembrei. Senti-me estranho, como a pessoa que já sentiu e viveu, mas que agora só pode lembrar. 

Garoto branco, 16 anos, 1,69m, magrelo, com uma insônia de 2 anos, esportista, chato, hiperativo, feliz. Não estudava tanto, pensava muito. Não sorria muito, gargalhava com o irmão. Não copiava matéria, mas desenhava. Não dormia, já amava. Tinha vó, tinha vô, tinha violão, tinha beijo de mãe e de tia, tinha o abraço do irmão. Tinha tudo e sabia disso, só não sabia que tinha alguém a mais. Dormia em uma garagem e achava graça, o barulho da rua entrava em todo o quarto. Mas toda madrugada relaxava na cama ao som da grave e serena buzina do trem. Tão distante e, mesmo assim, me fazia soltar cada músculo do corpo sobre a cama, não era um flutuar, mas sim um mergulho lento rumo a uma ressaca marítima. Rolar, rolar, rolar, rolar e nada. Não dormir e querer pensar nesses olhos esverdeados ao toque dos raios de sol, mas cor-de-mel nas horas vagas. Olhos Iguais aos Seus ou iguais aos meus. Escrever cartas, dar livros, dedicar livros e parar no meio do caminho. Mesmo parando, teve quem continuou a correr atrás daquilo que só hoje eu entendo. Não agradeço ainda, porque não cumpri minha promessa.

Garoto extremamente branco, 20 anos, 1,72m, mediolíneo, com um cansaço de 4 meses acumulado e prestes a cair de sono, corredor de esteira, jogador de vôlei às quintas, chato, hiperativo com cafeína e com altas doses de felicidade. Alimenta-se de medicina, pensa um pouco antes de dormir. Não sorri muito, gargalha com os amigos que mora. Copia até a chamada, desenha cachorros, ainda curte mais lobos. Dorme pouco, não tem tempo igual antes. Ama do mesmo jeito. Tem vó, tem vô, tem violão, tem mãe e tia sem beijo, todos no peito. Quer muito abraçar o irmão. A buzina do trem da CPTM faz ter boas lembranças da calmaria que era a sua garagem-quarto, mesmo com todo o barulho era só seu. Babar, rolar, cair da cama, voltar, babar, levantar e correr. Lembrar que não esqueceu de nada e se intrigar ainda hoje, querer escrever e não poder, precisa fechar a anamnese. Escrever relatórios, ler livros, ler mais livros, pagar multa na biblioteca, baixar livros, carregar livros, babar nos livros, secar os livros e copiar os livros. Não dar livro de verdade pra ninguém, sentir falta de presentear e de conversar quando der. Beber, cantar, dançar, ficar alegre, rouco e manco. Ter medo de fracassar e vencer como no final de um filme de ação. Sentir saudade, dor no peito, frio na barriga e querer escrever antes de viajar.



 

domingo, 11 de maio de 2014

Zumbis da Armani

Cidade cinza, com início e meio, mas sem fim. Caminhar por ela é o mesmo que ligar o automático e deixar fluir, milhares de rostos só são rostos; milhares de pernas, são só paulistanos. Não param, esbarram, andam olhando para o nada; dormem quando sentam e nunca agradecem, pois dizer obrigado gasta cerca de 1 segundo. Em um ano, agradecendo uma pessoa por dia, são 365 segundos perdidos, um pouco mais de 6 minutos. Tempo suficiente pra perder o metrô da Linha Vermelha sentido Itaquera duas vezes.

Aqui não se sai pra se divertir, mas sim pra lugares caros e de preferência com gente famosa. Afinal, uma noite sem ostentação não é uma noite paulistana típica. Um dia após a saída não se discute sobre a noite em si, mas sobre o custo do cartão de crédito e o quanto ficaram "loucos". Balada sertaneja, para eles são as melhores, entretanto poucos sabem dançar de verdade. Meninas saem juntas por uma noite e no outro dia consideram-se parte de um "bonde", já são melhores amigas pelo resto da vida, se o Orkut ainda existisse com certeza vários depoimentos seriam escritos. Drogar-se e sentir orgulho de sua própria loucura. Fazer inimigos com a mesma velocidade com que faz falsos amigos; declarar-se e abrir-se com desconhecidos, talvez nem tenham se aberto mesmo, talvez seja tudo mentira. Ficar ansiosos sempre que possível; recorrer ao pai e a mãe como crianças de 8 anos quando a vida os chama pra viver. #deontem #top #amorquenaosemed #selfie 

Tudo rápido, tudo superficial. Cada dia que passa eu agradeço muito por ser do "interior", por desconfiar e por construir tudo aos poucos, sem pressa, mas de forma concreta. Ouvir Nove e Nove do Tião Carreiro e Pardinho esperando a aula começar e sentir orgulho de tudo o que agreguei em 20 anos. Elite paulistana, tenho pena de você.

Até agora

Pintar-se; comer cebola, alho, beber reforço (leite estragado, vinagre, pimenta, unha; tudo misturado e aquecido); tomar Arara com Cantina da Serra; ser amarrado e pagar de cachorro até cair em coma alcoólico; ter a primeira amnésia alcoólica; abraçar o pai e dizer palavras que emocionaram todos e não se lembrar nem do momento; mudar para o tipo de cidade que mais desgosta; ganhar um Littman;não gostar de levar trote de desconhecidos; participar da Cerimônia do Jaleco Branco; ser conhecido como Sfínkter; ser o aluno a fazer a primeira anamnese do ano; participar de um Interbixos; quase apanhar injustamente; ser aprovado na Liga de Urgência e Emergência; criar o hino da faculdade e ficar conhecido por todos; ser odiado por alguns; ser admirado por poucos; ganhar um cargo na Comissão de Formatura; criar o Brasão da Turma VII; primeira ida ao hospital, arrepiar-se ao caminhar pelos corredores; arrepiar-se ao dar bom dia a primeira paciente; arrepiar-se ao se despedir de (agora conhecida) Dona Enide; se ferrar em algumas provas; recuperar a nota em outras; voltar ao hospital e atender um paciente adolescente; com muito custo criar uma relação médico-paciente com o garoto; sentir-se orgulhoso de si mesmo ao final da anamnese; receber um elogio e não deixar brecha para erro algum para a professora mais exigente; ser chamado de Camões após ler minha HPMA; menosprezar Bioquímica por amar a matéria; ir muito mal na prova de Bioquímica; estudar pra recuperar a nota; ser convidado pra jogar no EDUNI; vender a bicicleta pra poder custear minha viagem ao EDUNI; segurar uma colega desmaiada após uma crise hipoglicêmica em meio a aula de RCP; sentir saudade da mãe, não escrever nada para ela no Dia das Mães; lembrar daquelas que amo; ter vontade de escrever, querer escrever um texto pra cada situação citada e perceber que assim ficou mais fácil.