sexta-feira, 13 de junho de 2014

Dois

Deitado na cama, malas quase prontas no meio do quarto e o olhar no teto. Não sei se dormi, se sonhei ou se me perdi no nada de novo, só sei que me lembrei. Senti-me estranho, como a pessoa que já sentiu e viveu, mas que agora só pode lembrar. 

Garoto branco, 16 anos, 1,69m, magrelo, com uma insônia de 2 anos, esportista, chato, hiperativo, feliz. Não estudava tanto, pensava muito. Não sorria muito, gargalhava com o irmão. Não copiava matéria, mas desenhava. Não dormia, já amava. Tinha vó, tinha vô, tinha violão, tinha beijo de mãe e de tia, tinha o abraço do irmão. Tinha tudo e sabia disso, só não sabia que tinha alguém a mais. Dormia em uma garagem e achava graça, o barulho da rua entrava em todo o quarto. Mas toda madrugada relaxava na cama ao som da grave e serena buzina do trem. Tão distante e, mesmo assim, me fazia soltar cada músculo do corpo sobre a cama, não era um flutuar, mas sim um mergulho lento rumo a uma ressaca marítima. Rolar, rolar, rolar, rolar e nada. Não dormir e querer pensar nesses olhos esverdeados ao toque dos raios de sol, mas cor-de-mel nas horas vagas. Olhos Iguais aos Seus ou iguais aos meus. Escrever cartas, dar livros, dedicar livros e parar no meio do caminho. Mesmo parando, teve quem continuou a correr atrás daquilo que só hoje eu entendo. Não agradeço ainda, porque não cumpri minha promessa.

Garoto extremamente branco, 20 anos, 1,72m, mediolíneo, com um cansaço de 4 meses acumulado e prestes a cair de sono, corredor de esteira, jogador de vôlei às quintas, chato, hiperativo com cafeína e com altas doses de felicidade. Alimenta-se de medicina, pensa um pouco antes de dormir. Não sorri muito, gargalha com os amigos que mora. Copia até a chamada, desenha cachorros, ainda curte mais lobos. Dorme pouco, não tem tempo igual antes. Ama do mesmo jeito. Tem vó, tem vô, tem violão, tem mãe e tia sem beijo, todos no peito. Quer muito abraçar o irmão. A buzina do trem da CPTM faz ter boas lembranças da calmaria que era a sua garagem-quarto, mesmo com todo o barulho era só seu. Babar, rolar, cair da cama, voltar, babar, levantar e correr. Lembrar que não esqueceu de nada e se intrigar ainda hoje, querer escrever e não poder, precisa fechar a anamnese. Escrever relatórios, ler livros, ler mais livros, pagar multa na biblioteca, baixar livros, carregar livros, babar nos livros, secar os livros e copiar os livros. Não dar livro de verdade pra ninguém, sentir falta de presentear e de conversar quando der. Beber, cantar, dançar, ficar alegre, rouco e manco. Ter medo de fracassar e vencer como no final de um filme de ação. Sentir saudade, dor no peito, frio na barriga e querer escrever antes de viajar.



 

domingo, 11 de maio de 2014

Zumbis da Armani

Cidade cinza, com início e meio, mas sem fim. Caminhar por ela é o mesmo que ligar o automático e deixar fluir, milhares de rostos só são rostos; milhares de pernas, são só paulistanos. Não param, esbarram, andam olhando para o nada; dormem quando sentam e nunca agradecem, pois dizer obrigado gasta cerca de 1 segundo. Em um ano, agradecendo uma pessoa por dia, são 365 segundos perdidos, um pouco mais de 6 minutos. Tempo suficiente pra perder o metrô da Linha Vermelha sentido Itaquera duas vezes.

Aqui não se sai pra se divertir, mas sim pra lugares caros e de preferência com gente famosa. Afinal, uma noite sem ostentação não é uma noite paulistana típica. Um dia após a saída não se discute sobre a noite em si, mas sobre o custo do cartão de crédito e o quanto ficaram "loucos". Balada sertaneja, para eles são as melhores, entretanto poucos sabem dançar de verdade. Meninas saem juntas por uma noite e no outro dia consideram-se parte de um "bonde", já são melhores amigas pelo resto da vida, se o Orkut ainda existisse com certeza vários depoimentos seriam escritos. Drogar-se e sentir orgulho de sua própria loucura. Fazer inimigos com a mesma velocidade com que faz falsos amigos; declarar-se e abrir-se com desconhecidos, talvez nem tenham se aberto mesmo, talvez seja tudo mentira. Ficar ansiosos sempre que possível; recorrer ao pai e a mãe como crianças de 8 anos quando a vida os chama pra viver. #deontem #top #amorquenaosemed #selfie 

Tudo rápido, tudo superficial. Cada dia que passa eu agradeço muito por ser do "interior", por desconfiar e por construir tudo aos poucos, sem pressa, mas de forma concreta. Ouvir Nove e Nove do Tião Carreiro e Pardinho esperando a aula começar e sentir orgulho de tudo o que agreguei em 20 anos. Elite paulistana, tenho pena de você.

Até agora

Pintar-se; comer cebola, alho, beber reforço (leite estragado, vinagre, pimenta, unha; tudo misturado e aquecido); tomar Arara com Cantina da Serra; ser amarrado e pagar de cachorro até cair em coma alcoólico; ter a primeira amnésia alcoólica; abraçar o pai e dizer palavras que emocionaram todos e não se lembrar nem do momento; mudar para o tipo de cidade que mais desgosta; ganhar um Littman;não gostar de levar trote de desconhecidos; participar da Cerimônia do Jaleco Branco; ser conhecido como Sfínkter; ser o aluno a fazer a primeira anamnese do ano; participar de um Interbixos; quase apanhar injustamente; ser aprovado na Liga de Urgência e Emergência; criar o hino da faculdade e ficar conhecido por todos; ser odiado por alguns; ser admirado por poucos; ganhar um cargo na Comissão de Formatura; criar o Brasão da Turma VII; primeira ida ao hospital, arrepiar-se ao caminhar pelos corredores; arrepiar-se ao dar bom dia a primeira paciente; arrepiar-se ao se despedir de (agora conhecida) Dona Enide; se ferrar em algumas provas; recuperar a nota em outras; voltar ao hospital e atender um paciente adolescente; com muito custo criar uma relação médico-paciente com o garoto; sentir-se orgulhoso de si mesmo ao final da anamnese; receber um elogio e não deixar brecha para erro algum para a professora mais exigente; ser chamado de Camões após ler minha HPMA; menosprezar Bioquímica por amar a matéria; ir muito mal na prova de Bioquímica; estudar pra recuperar a nota; ser convidado pra jogar no EDUNI; vender a bicicleta pra poder custear minha viagem ao EDUNI; segurar uma colega desmaiada após uma crise hipoglicêmica em meio a aula de RCP; sentir saudade da mãe, não escrever nada para ela no Dia das Mães; lembrar daquelas que amo; ter vontade de escrever, querer escrever um texto pra cada situação citada e perceber que assim ficou mais fácil.

domingo, 2 de março de 2014

Queísmo proposital

Estou louco pra escrever há muitos dias, mas agora que encaro essa tela e os teclados me sinto intimidado. Não sei por onde acabar esse texto, é tanta coisa que não me resta nada de importante. Perdi um piano, um rinoceronte e um mamute, todos estavam empilhados nas minhas costas, simplesmente se foram. Meu peito já não dói igual antes, minha barriga já não gela ao encarar certos sorrisos e, pelo incrível que pareça, to odiando tudo isso. Vai ver já tinha me acostumado com a sensação, agora estranho não sentir mais nada. No entanto, ainda está aqui.

Em alguns momentos me sinto frio, em outros me emociono com propagandas de banco. Admiro gestos sutis que presencio no cotidiano, dou importância a tudo, mas guardo pra mim. Encaro todo o passado como se fosse realmente distante, às vezes sinto saudade e às vezes não sei o que sentir. Não quero esperar, não quero correr e tenho medo do tarde ser tarde demais. Tarde pra que? Por quê? Por quem? Pra quem? Já faz um tempo que tento descobrir, nunca descobri nenhuma das respostas.

Instinto, meu velho e mais novo guia ativo. Pensar, escrever sobre o que pensa, desenhar sobre o que sente e se decepcionar, pois estava tudo errado: o pensamento, o texto, o desenho e o sentimento. Que minhas ações sejam movidas por coragem, desejo e realidade e que os outros continuem sendo outros; que a saudade seja guardada em uma caixa de jóias transparente e colocada na mesinha de centro da sala, assim posso fitá-la com carinho, sem nenhum arrependimento. Viver sem esperar por ninguém ou mesmo por alguém, só viver.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Rabisco



A arte de estragar um rosto lindo em nome de uma noite bem dormida, essa eu domino. O sorriso eu não consegui entregar, quero guardá-lo pra sempre. Talvez um dia eu acabe, dê sombra, coloque mais detalhes, apague alguns erros, coloque outros, um pouco mais de cuidado, menos amor.





terça-feira, 5 de novembro de 2013

Aspirando Mercúrio

18ºC; 16km/h; moletom azul; respiração ofegante; dor abdominal no lado esquerdo superior; som de rodas passando na água da recente chuva no asfalto. Tentando desligar a mente ao menos por 6km, não pensar em nada e em ninguém, deparar com um branco leitoso: sem estar, ser ou parecer. Só sentir o vento cortar uma mente vazia e sem preocupações, transpassar um coração ileso, virgem, sem dor ou cicatrizes. Sentir o suor descer pelas têmporas e secar com a brisa antes que ultrapasse minhas costeletas.

Tomar uma rua aleatória, pedalar até uma estrada que me leve pra longe. Longe de tudo o que se refere a mim e toda a minha vida, esquecer por um tempo o que sou e quem fui. Observar as pessoas sem nenhum preconceito ou julgamento, mas apenas olhar e não perceber nada, só ver rostos e atitudes sem significados: sem classe, beleza ou status. Interagir o mínimo possível, falar o que for conveniente e rir de si mesmo sem saber ao certo do que.

Não ter pai, mas só uma mãe, Mãe Terra. Surgir da incerteza e não querer achar um sentido ou origem de tal nascimento. Viver pra viver, sem querer um passado e não almejar um brilhante futuro, nem pensar no futuro. Ouvir música e não lembrar de nada e ninguém, só dançar como se pudesse flutuar, sem vergonha ou limitação física ou simplesmente apreciar cada acorde, mas sem querer interpretar a letra. Só ouvir por ouvir, curtir o ritmo que ela me oferece.

Não criar laços, não se interessar e muito menos amar. Olhar pra todas e não ver olhos interessantes, nem cabelos, nem gestos e muito menos sorrisos inesquecíveis. Só ver o que for útil pra aquele momento, algo rápido e sem continuidade, não ter de fechar os olhos e tornar a vê-las.

Comer, se exercitar, descansar, banhar-se e dormir. Não ter que escrever, não ter porquê escrever. Não ter por quem escrever, nem querer alguém pra ter de escrever, não querer que ninguém leia. Não querer ler, nem descobrir, deixar como está, sem se sentir incomodado com isso. Nem mudar, nem transformar, só ser. Dormir sem ter que fechar os olhos.

Não sonhar, nunca.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Sem revisão

Amanhã concretizo a metade do meu futuro. Daqui 1 hora e 15min eu faço 20 anos. E mesmo diante de tudo isso, ainda consigo me sentar e escrever, melhor assim, que esses pensamentos tempestuosos fiquem por aqui.

Hoje fiquei calado a maior parte do tempo, eu realmente precisava de alguém pra conversar. Tentei ganhar um sutil presente antecipado, sem pedir, mas pedindo. Confesso que quase implorei. De nada adiantou, gravei minha voz por alguns momentos pra tentar suprir esse silêncio infernal, gostaria de poder falar com o espelho às vezes. Não sei por quanto tempo vou querer me decepcionar, dói ficar tentando, e tentando, e tentando, no entanto o final é aquele já sabido. Faço as escolhas erradas e fico tentando consertar. Queria que a coragem falasse mais alto que o amor nos ouvidos desse coração: surrado, cicatrizado, insano e meio surdo.

Odeio envelhecer, mas hoje tanto faz. Tanta coisa me desagrada, se eu for adicionar outros desagrados a coisa só tende a piorar. Que fiquem os essenciais, envelhecer é natural, não posso codená-lo hoje. Um homem, sempre tive essa ideia desde criança. Só se é homem depois dos 19, porque quando se faz 18 demoram dois anos pra se acostumar com tudo, além da mudança na casa das dezenas, acho que o segundo era mais importante na minha meninice. No final das contas eu não me acho homem, idade é a maior balela. São números e de números eu não entendo muito bem, só serei homem de verdade quando puder dizer não quando eu bem entender. Será que eu serei homem antes de morrer?

Queria muito me presentear. Meu maior presente seria ficar em casa, deitado no colo da vó Berenice, ouvindo meu avô assoviar com seus passarinhos no fundo de casa, enquanto escuto o barulho metálico das colheres batendo nas panelas, é minha mãe fazendo nosso almoço. Sabendo que ela sorri enquanto cozinha, pois sabe que a dor se foi, a dor se foi no momento em que aquela senhora pisou naquela casa. Olhar naqueles olhos azuis claros e ver um sorriso, mesmo que a boca não precise dizer nada, talvez eu nunca mais veja tal fenômeno. Pra dizer a verdade, um abraço nela e nele já seria esplêndido.

João Victor, Vito, Titíti, Johnny, John John, João, Andraus, Alemão, Rick... Alguns apelidos se perderam junto com aqueles que eu também já perdi. Os que importam eu quero citar, mas nenhum conseguirá me descrever por completo, o eu real. Se todos se juntassem em um só nome, coisa de nobre da corte, nem assim eu seria descrito. Falta o meu apelido, aquele que eu me chamo, aquele que eu mudo todos os dias. Esse só eu sei.

O meu presente número dois seria um sonho na forma de máquina do tempo, cada hora dormida equivaleria a um ano atrás. Não sei se dormiria por mais de 12 anos, eu sei que conseguiria estragar toda a minha infância com a mentalidade que tenho hoje. Pra ser sincero eu queria dormir, e só, dormir daqui até o final e que o início do sonho já fosse o fim.