quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Olhos secos

Por muito tempo me enxerguei de forma linear. Cada episódio importante moldaria meu ser gradualmente, uma evolução involuntária, quase sempre benéfica. Só que o agora me mostra a quebra dessa linha em milhares de fragmentos, juntos formam uma esfera opaca. Espero poder retirar toda essa opacidade, enxergar o que há dentro; ta difícil me entender. Não dá mais vontade de voltar, não há arrependimentos, não há sede de futuro. Meus olhos? Ainda secos, nenhuma umidade, o que me preocupa.


Xeroftalmia.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

À Deriva

Cada fio negro se enrola em minha consciência e a lembrança do erro se porta como fagulha no peito. O arrependimento se torna raiva, e a fúria dos lábios macios e venenosos me deixam à deriva. As velas já içadas não conseguem me conduzir pra lugar algum, pois os olhos de navalha ainda cortam, cortaram fundo demais.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Olhos de Navalha

No peito só resta o vazio e cicatrizes geladas, o frio na barriga é de dor, as borboletas que aqui já habitaram estão mortas ou cansaram de bater asa. Fui alvo das lâminas mais afiadas do mundo, lâmina fria nº 22; cortaram meu ser, minha honra e corromperam minha alma pra todo o sempre. Destruí o que construí durante 19 anos, já não posso ser o cavaleiro de armadura reluzente, mas sim o mercenário, sem código.
Cabelos negros me mergulharam na escuridão; não posso destruir quem me amou da forma mais perfeita e verdadeira, devo partir sem olhar pra dor que causei. Assim, a dor vai ser menor.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Dois

Deitado na cama, malas quase prontas no meio do quarto e o olhar no teto. Não sei se dormi, se sonhei ou se me perdi no nada de novo, só sei que me lembrei. Senti-me estranho, como a pessoa que já sentiu e viveu, mas que agora só pode lembrar. 

Garoto branco, 16 anos, 1,69m, magrelo, com uma insônia de 2 anos, esportista, chato, hiperativo, feliz. Não estudava tanto, pensava muito. Não sorria muito, gargalhava com o irmão. Não copiava matéria, mas desenhava. Não dormia, já amava. Tinha vó, tinha vô, tinha violão, tinha beijo de mãe e de tia, tinha o abraço do irmão. Tinha tudo e sabia disso, só não sabia que tinha alguém a mais. Dormia em uma garagem e achava graça, o barulho da rua entrava em todo o quarto. Mas toda madrugada relaxava na cama ao som da grave e serena buzina do trem. Tão distante e, mesmo assim, me fazia soltar cada músculo do corpo sobre a cama, não era um flutuar, mas sim um mergulho lento rumo a uma ressaca marítima. Rolar, rolar, rolar, rolar e nada. Não dormir e querer pensar nesses olhos esverdeados ao toque dos raios de sol, mas cor-de-mel nas horas vagas. Olhos Iguais aos Seus ou iguais aos meus. Escrever cartas, dar livros, dedicar livros e parar no meio do caminho. Mesmo parando, teve quem continuou a correr atrás daquilo que só hoje eu entendo. Não agradeço ainda, porque não cumpri minha promessa.

Garoto extremamente branco, 20 anos, 1,72m, mediolíneo, com um cansaço de 4 meses acumulado e prestes a cair de sono, corredor de esteira, jogador de vôlei às quintas, chato, hiperativo com cafeína e com altas doses de felicidade. Alimenta-se de medicina, pensa um pouco antes de dormir. Não sorri muito, gargalha com os amigos que mora. Copia até a chamada, desenha cachorros, ainda curte mais lobos. Dorme pouco, não tem tempo igual antes. Ama do mesmo jeito. Tem vó, tem vô, tem violão, tem mãe e tia sem beijo, todos no peito. Quer muito abraçar o irmão. A buzina do trem da CPTM faz ter boas lembranças da calmaria que era a sua garagem-quarto, mesmo com todo o barulho era só seu. Babar, rolar, cair da cama, voltar, babar, levantar e correr. Lembrar que não esqueceu de nada e se intrigar ainda hoje, querer escrever e não poder, precisa fechar a anamnese. Escrever relatórios, ler livros, ler mais livros, pagar multa na biblioteca, baixar livros, carregar livros, babar nos livros, secar os livros e copiar os livros. Não dar livro de verdade pra ninguém, sentir falta de presentear e de conversar quando der. Beber, cantar, dançar, ficar alegre, rouco e manco. Ter medo de fracassar e vencer como no final de um filme de ação. Sentir saudade, dor no peito, frio na barriga e querer escrever antes de viajar.



 

domingo, 11 de maio de 2014

Zumbis da Armani

Cidade cinza, com início e meio, mas sem fim. Caminhar por ela é o mesmo que ligar o automático e deixar fluir, milhares de rostos só são rostos; milhares de pernas, são só paulistanos. Não param, esbarram, andam olhando para o nada; dormem quando sentam e nunca agradecem, pois dizer obrigado gasta cerca de 1 segundo. Em um ano, agradecendo uma pessoa por dia, são 365 segundos perdidos, um pouco mais de 6 minutos. Tempo suficiente pra perder o metrô da Linha Vermelha sentido Itaquera duas vezes.

Aqui não se sai pra se divertir, mas sim pra lugares caros e de preferência com gente famosa. Afinal, uma noite sem ostentação não é uma noite paulistana típica. Um dia após a saída não se discute sobre a noite em si, mas sobre o custo do cartão de crédito e o quanto ficaram "loucos". Balada sertaneja, para eles são as melhores, entretanto poucos sabem dançar de verdade. Meninas saem juntas por uma noite e no outro dia consideram-se parte de um "bonde", já são melhores amigas pelo resto da vida, se o Orkut ainda existisse com certeza vários depoimentos seriam escritos. Drogar-se e sentir orgulho de sua própria loucura. Fazer inimigos com a mesma velocidade com que faz falsos amigos; declarar-se e abrir-se com desconhecidos, talvez nem tenham se aberto mesmo, talvez seja tudo mentira. Ficar ansiosos sempre que possível; recorrer ao pai e a mãe como crianças de 8 anos quando a vida os chama pra viver. #deontem #top #amorquenaosemed #selfie 

Tudo rápido, tudo superficial. Cada dia que passa eu agradeço muito por ser do "interior", por desconfiar e por construir tudo aos poucos, sem pressa, mas de forma concreta. Ouvir Nove e Nove do Tião Carreiro e Pardinho esperando a aula começar e sentir orgulho de tudo o que agreguei em 20 anos. Elite paulistana, tenho pena de você.

Até agora

Pintar-se; comer cebola, alho, beber reforço (leite estragado, vinagre, pimenta, unha; tudo misturado e aquecido); tomar Arara com Cantina da Serra; ser amarrado e pagar de cachorro até cair em coma alcoólico; ter a primeira amnésia alcoólica; abraçar o pai e dizer palavras que emocionaram todos e não se lembrar nem do momento; mudar para o tipo de cidade que mais desgosta; ganhar um Littman;não gostar de levar trote de desconhecidos; participar da Cerimônia do Jaleco Branco; ser conhecido como Sfínkter; ser o aluno a fazer a primeira anamnese do ano; participar de um Interbixos; quase apanhar injustamente; ser aprovado na Liga de Urgência e Emergência; criar o hino da faculdade e ficar conhecido por todos; ser odiado por alguns; ser admirado por poucos; ganhar um cargo na Comissão de Formatura; criar o Brasão da Turma VII; primeira ida ao hospital, arrepiar-se ao caminhar pelos corredores; arrepiar-se ao dar bom dia a primeira paciente; arrepiar-se ao se despedir de (agora conhecida) Dona Enide; se ferrar em algumas provas; recuperar a nota em outras; voltar ao hospital e atender um paciente adolescente; com muito custo criar uma relação médico-paciente com o garoto; sentir-se orgulhoso de si mesmo ao final da anamnese; receber um elogio e não deixar brecha para erro algum para a professora mais exigente; ser chamado de Camões após ler minha HPMA; menosprezar Bioquímica por amar a matéria; ir muito mal na prova de Bioquímica; estudar pra recuperar a nota; ser convidado pra jogar no EDUNI; vender a bicicleta pra poder custear minha viagem ao EDUNI; segurar uma colega desmaiada após uma crise hipoglicêmica em meio a aula de RCP; sentir saudade da mãe, não escrever nada para ela no Dia das Mães; lembrar daquelas que amo; ter vontade de escrever, querer escrever um texto pra cada situação citada e perceber que assim ficou mais fácil.

domingo, 2 de março de 2014

Queísmo proposital

Estou louco pra escrever há muitos dias, mas agora que encaro essa tela e os teclados me sinto intimidado. Não sei por onde acabar esse texto, é tanta coisa que não me resta nada de importante. Perdi um piano, um rinoceronte e um mamute, todos estavam empilhados nas minhas costas, simplesmente se foram. Meu peito já não dói igual antes, minha barriga já não gela ao encarar certos sorrisos e, por incrível que pareça, to odiando tudo isso. Vai ver já tinha me acostumado com a sensação, agora estranho não sentir mais nada. No entanto, ainda está aqui.

Em alguns momentos me sinto frio, em outros me emociono com propagandas de banco. Admiro gestos sutis que presencio no cotidiano, dou importância a tudo, mas guardo pra mim. Encaro todo o passado como se fosse realmente distante, às vezes sinto saudade e às vezes não sei o que sentir. Não quero esperar, não quero correr e tenho medo do tarde ser tarde demais. Tarde pra que? Por quê? Por quem? Pra quem? Já faz um tempo que tento descobrir, nunca descobri nenhuma das respostas.

Instinto, meu velho e mais novo guia ativo. Pensar, escrever sobre o que pensa, desenhar sobre o que sente e se decepcionar, pois estava tudo errado: o pensamento, o texto, o desenho e o sentimento. Que minhas ações sejam movidas por coragem, desejo e realidade e que os outros continuem sendo outros; que a saudade seja guardada em uma caixa de jóias transparente e colocada na mesinha de centro da sala, assim posso fitá-la com carinho, sem nenhum arrependimento. Viver sem esperar por ninguém ou mesmo por alguém, só viver.